O vendedor de sonhos - A jornada, pág. 214

— Duas lagartas teceram cada uma seu casulo. Naquele ambiente protegido, foram transformadas em belíssimas borboletas. Quando estavam prestes a sair e voar livremente, vieram as ponderações. Uma borboleta, sentido-se frágil, pensou consigo: ”A vida lá fora tem muitos perigos. Poderei ser despedaçada e comida por um pássaro. E mesmo se um predador não me atacar, poderei sofrer com as tempestades. Um raio poderá me atingir. As chuvas poderão colaborar minhas asas, levando-me a tombar no chão. Além disso, a primavera está acabando, e se faltar o néctar? Quem irá me socorrer?”. Os riscos de fato eram muitos, e a pequena borboleta tinha suas razões. Amedrontada, resolveu não partir. Ficou no seu protegido casulo, mas como não tinha como sobreviver, morreu de um modo triste, desnutrida, desidratada e, pior ainda, enclausurada pelo mundo que tecera. Após essas considerações, ele nos disse:
— A outra borboleta também ficou apreensiva; tinha medo do mundo lá fora, sabia que muitas borboletas não duravam um dia fora do casulo, mas amou a liberdade mais dos que os acidentes que viriam. E assim, partiu. Voou em direção a todos os perigos. Preferiu ser uma caminhante em busca da única coisa que determinava a sua essência.
Após contar a parábola, o mestre descortinou suas intenções.
Fez uma breve pausa para ouvir o belíssimo canto que parecia que o homenageava e fez uma serie de solicitações simples e profundas. Eram tantas que eu tinha dificuldade de fazer anotações:
— Chamei-os bem cedo porque os enviarei por dois dias para vivenciarem os princípios que fundamentam a experiência social de ser ”um ser humano sem fronteiras”. Vou enviá-los de dois em dois para o terreno social. Não levem bolsa, dinheiro, cheque, cartão de crédito, alimentos, nada que lhes dê suporte para sobreviverem, somente remédios e produtos de higiene pessoal. Comam o que lhes oferecerem. Durmam na cama que lhes prepararem. Não discriminem ninguém. Se alguém os rejeitar, não resistam, tratem-no com brandura. Atuem como socioterapeutas. Dêem e recebam. Não dominem as pessoas, não defendam sua crença, não imponham as suas idéias, exalem sua humanidade. Perguntem, a quem encontrarem pelo caminho, no que vocês lhes podem ser úteis. Dialoguem com as pessoas, conheçam páginas secretas, desvendem seres humanos deslumbrantes entre os anônimos. Não os enxerguem com seus olhos, mas com os olhos deles. Não invadam sua privacidade, não a controlem, vão até onde eles lhes permitam. Ouçam-nos humildemente, mesmo os que pensam em desistir da vida, e os estimulem a eles mesmos se ouvirem. Se conseguirem ouvir-se, será muito melhor do que ouvirem vocês. Lembrem-se de que o reino da sabedoria pertence aos humildes.
Depois de nos dar todas essas recomendações, mostrou um certo ar de preocupação e nos alertou:
— Vivemos no terceiro milênio. Vender o sonho de ser um ser humano sem fronteiras nessa sociedade que atingiu o apogeu do individualismo parece o absurdo dos absurdos. Ser solidário, generoso e solícito quando os outros pedem já é extraordinário, imagine quando não pedem. Vocês serão chamados de fanáticos, doentes mentais, desvairados, proselitistas. Mas se receberam a mim, também receberão vocês.
Fora isso, não deu regras sobre o modo de abordar as pessoas e a quem procurar, se ricos, pobres, cultos, iletrados, moradores do centro, da periferia. Não nos deu mapa. Seus cabelos revoavam com o vento, e nós pingávamos de suor. A sua proposta gerou incontestável apreensão. Pensei comigo: ”Isso não vai dar certo. Seremos mal interpretados. Talvez escorraçados. E se eu encontrar alguns dos meus colegas professores? O que dirão de mim?”. Ele complementou:
— Há muitas formas de contribuir para o bem da humanidade, mas nenhuma delas é uma passagem tranqüila, nenhuma é realizada sob constantes aplausos. A forma que proponho poderá gerar mais desconfianças. De manhã poderão ser famosos, à tarde poderão cair em desgraça. Num momento poderão ser valorizados, noutro, tratados como escória social. As conseqüências são imprevisíveis. Mas lhes garanto que, se superarem as intempéries, sairão muito mais humanos, muito mais fortes, e como sobremesa entenderão o que os livros jamais propiciaram. Entenderão um pouco o que milhões de judeus viveram nas mãos dos nazistas, os cristãos na arena do Coliseu, os mulçumanos na Palestina, bem como o que os religiosos, prostitutas, homossexuais, negros e mulheres, sofreram ao longo da história.
Pensei comigo: ”Soltar Bartolomeu e Dimas para representarem o mestre sem monitorá-los poderá ser um desastre. Não é muito diferente de deixar um estudante de medicina fazer uma cirurgia sem preceptor”. O que o mestre nos pedia era para fazermos um laboratório social diferente de tudo que estudei em sociologia. Não era para ir à África com suporte financeiro para fazer caridade, nem para exercer a filantropia numa instituição, nem discorrer sobre uma religião ou anunciar um partido político. Era um retorno puro às nossas origens. Não podíamos levar nada, nem mesmo nosso prestígio social.
Teríamos de ser apenas seres humanos em conexão com outros seres humanos.
Franzindo a testa, ele disse que tínhamos uma escolha.
— Encorajo-os a sair do casulo pelo menos dessa vez, mas ninguém é obrigado a fazê-lo. Os riscos são muitos, as conseqüências imprevisíveis. A escolha é de vocês, somente de vocês.